Há uma doce e comovente ingenuidade em acreditar que uma tese logicamente impecável carrega, por si só, a verdade. Eis um grande equívoco. Dê a um sujeito o dom da retórica e ele, num piscar de olhos, passará a se olhar no espelho com a reverência devida a um profeta. E, como a sua coroa é tecida de saliva e aplausos, ele defenderá suas convicções com a ferocidade teatral de uma leoa de zoológico.
Esquece-se, porém, daquela velha e incômoda senhora: a
realidade. Não nego, veja bem, o charme das hipóteses. A capacidade de inventar
mundos logicamente perfeitos, é o que, em tese, nos separa dos primatas. O
diabo é que, por mais sublime que seja a arquitetura de um raciocínio, se ela
não sobreviver ao esbarrão grosseiro dos fatos, não passa de literatura de
ficção.
As hipóteses são, no fundo, poemas não assumidos, fantasias
de coisas que, quem sabe, numa terça-feira qualquer, podem até acontecer. É aí
que entra a retórica, essa genial maquiadora de manequins. Sua função, sublime
e terrível, é encobrir as fragilidades teóricas e vestir as suposições com
trajes de conhecimento.
A técnica é encantadora, deita-se uma suposição qualquer
numa cama de veludo de argumentos logicamente perfeitos e pronto, o sujeito
jura aos céus que decifrou um enigma do Universo. Na tragédia cotidiana dos
debates, gasta-se uma eternidade, suando sangue, apenas para provar que aquela
suntuosa carruagem intelectual nunca passou de uma abóbora.
Diante disso, o leitor apressado dirá: Ora, com tanta
facilidade de persuasão, a retórica vai reinar absoluta para sempre! Calma. Ela
vence até a página dois. No fim, a rainha imperiosa da realidade sempre cobra o
seu tributo. E o acerto costuma ser dramático, tanto para os artífices da
retórica quanto, e principalmente, para as almas cândidas que neles
acreditaram.
Tomemos o exemplo clássico da nossa fauna política.
Imaginemos um grupo que, tocado por uma agenda qualquer, convence-se de que
ocupar posições de poder não fortalece o grupo, que o bom mesmo é preservar a
pureza de seus ideais e vencer a guerra das narrativas. Do outro lado da rua,
um grupo menos apegado nessa cartilha, convencido de que sem a caneta na mão e
a cadeira na sala, um coletivo não passa de um fã-clube glorificado.
Os primeiros terão, fatalmente, os manifestos mais
deslumbrantes. Falarão, com a empáfia dos retóricos, sobre como a máquina
institucional corrói a pureza e como a verdadeira força mora no domínio do
debate público. Sua retórica será impecável. Criarão uma bolha de arrogância
intelectual onde todos se sentem invencíveis porque, no laboratório
esterilizado das suas mentes, a equação fecha perfeitamente.
Já o segundo bando carece de poesia. Eles chafurdam na teia
suja, prosaica e implacável do mundo real. Eles sabem, com a sabedoria das
calçadas, que um grupo só ganha músculos e sobrevive quando senta na cadeira e direciona
as cartas. E enquanto os teóricos de palanque gastam suas cordas vocais polindo
a estética da própria ir relevância em intermináveis argumentos, o segundo
grupo articula, firma acordos, nomeia aliados e encaminha a máquina da
realidade a seu favor.
O desenlace? A vida como ela é não liga a mínima para as
hipóteses mascaradas de verdade. A vida apenas acontece, esmagadora. Os
teóricos descobrirão, com o nariz quebrado na vitrine da realidade, que não
adianta ter a militância mais engajada nas discussões se o orçamento, as verbas
e as leis que definem o jogo estão sob o controle do grupo rival, que agora é
institucionalmente gigante, blindado e infinitamente mais forte. A vã tese de
que o ocupar posições poder não fortalece o grupo não será refutada pelo
debate, mas pela constatação amarga de que o adversário os engoliu vivos. Será
com uma pancada seca, surda e inevitável dos fatos que acordarão.
É exatamente aqui que ocorre o trágico despertar. Para os
arquitetos da narrativa, resta o espanto cômico de ver seu castelo de cartas
desmoronar com um sopro. Mas para os seus devotos, a ressaca é muito mais
severa, é a constatação pavorosa de que a ginástica lógica de todas as suas
agendas não os salvou do moedor de carne que é o moinho do mundo.
No frigir dos seus ovinhos, a retórica é maravilhosa para
vencer eleições de grêmio estudantil, impressionar em debates intermináveis e,
sobretudo, lacrar no grupo do zap. Mas quem carrega o caixão, no final, é a
rainha da realidade. O verdadeiro conhecimento, e a sabedoria que o acompanha,
exige a humildade, raríssima, de pegar a nossa teoria de estimação e jogá-la,
sem piedade, na valeta fria, dura e magnífica da vida, só para ver se ela
sobrevive ao choque.
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